sexta-feira, 27 de março de 2015

A gente morre um pouco quando o amor acaba


Todo mundo já passou por isso. A gente dorme dois, acorda um. Compartilha a vida com alguém e de um dia para o outro resta apenas o nada. É como uma morte súbita. A dor de perder um amor é dor de morte. Dói o corpo, o coração fica espremido, a cabeça não funciona. A pessoa vai embora e leva seu sono, sua fome, sua alegria. Como se a vida repentinamente perdesse o sabor e o sentido.

A gente mergulha numa profunda confusão sem entender até mesmo quem é, quando olha para os lados e se percebe só. Fica difícil andar pelos mesmos lugares, entrar em casa e ver tudo vazio de amor. Fica tudo tão estéril do 'nós'. Tudo tão amortecido e silencioso porque não somos mais nós dois.

Eu me senti assim todas as vezes que um amor se foi. Não é somente saudade da pessoa. A gente sente falta até do que nem imagina. Senti saudade de todos os livros que um deles levou embora e que eu nem tive tempo de ler. Eles estavam lá o tempo todo e eu achava que teria o tempo todo para ler. É muito injusto não saber quanto dura um amor. É golpe baixo que ele fique moribundo quando ainda respira dentro de nós. Vai o amor e vão-se os livros não lidos.

Também já senti falta dos quadros. Sei que eles gostavam tanto dessas paredes e fiquei com pena deles talvez meio desconfortáveis em paredes desconhecidas, em paredes que talvez nem estivessem felizes de abraçá-los como as minhas paredes.

Desisti de um programa de TV porque até o apresentador me despertava melancolia. E a única vez que sintonizei o canal depois que a razão do meu afeto foi embora, ele travou, tropeçou nas palavras, a imagem ia e voltava, até que desapareceu. Percebi que ele não estava entendendo a ausência da minha agora ex-metade. Dei um tempo para ele se conformar que de agora em diante seríamos só eu e ele, se ele assim quisesse.

E coitada de uma cafeteira que compramos numa viagem –eu e um desses amores que ficaram pelo tempo. Mal sabia dos planos que a gente tinha para ela. Eu imaginava ele fumando um cigarro, encostado na janela, segurando a xícara, sentindo o sol batendo no corpo, enquanto eu passeava descalça pela casa, com a toalha na cabeça, comendo meu iogurte de frutas vermelhas. Ela ficou linda na cozinha, com aquelas cápsulas coloridas. Mas no fim ela me despertou mais ódio do que qualquer outra coisa. E um dia eu simplesmente me livrei dela –depois que já tinha me livrado do amor.

A história pode ser nova, mas o fim de um amor é quase sempre um filme velho. A gente fica no meio da sala parado sem saber aonde ir ou o que fazer e quase pode sentir os móveis nos olhando com pena. A mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê, do mesmo jeitinho que Vinícius descreve naquele poema que eu repeti tantas vezes quando éramos felizes.

A cama incomoda, ela fica grande de repente, lembra sempre da nossa profunda solidão instantânea. Os lençóis, os travesseiros, o edredom, tudo parece impregnado de cheiro e de lembrança, mesmo que a gente troque a roupa de cama duas vezes por semana. Acho que são eles na madrugada perguntando onde está o fulano. Quem dorme? É assim durante as primeiras semanas, mas aos poucos a tristeza vai dando lugar ao conformismo e as noites passam a ser menos longas e menos sádicas.

Outra vez mudei todos os meus caminhos, abandonei restaurantes, troquei até de faxineira. Gostava das ruas arborizadas, da luz bonita que refletia na praça pela manhã. Não quero que nada me lembre o que acabou de acabar, muito menos uma coalhada seca. De azeda já bastava a vida naquele momento.

É sempre um luto. Sentimentos ruins nos invadem e depois passa. A gente se derrama de amor porque acredita que é muito amor. Às vezes é mesmo. Mas isso também passa. O duro é atravessar esse deserto de sentimento, ouvindo o silêncio das paredes.

Ouço essas músicas cafonas que me afundam cada dia um pouco mais, cultivo o luto, como se o fim de um amor merecesse uma homenagem póstuma. Mas é só tristeza mesmo, só dor de cotovelo, só uma profunda incapacidade de aceitar que alguém não me quer. A gente morre um pouco quando o amor acaba. Vai até o fundo do poço. O sofrimento de amor é clichê. Tem dor, tem drama. Dói o coração, mas dói mais o orgulho ferido do desamor.

E se do chão ninguém passa, de orgulho ferido ninguém morre.

(Mariliz Pereira Jorge)


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