sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Até que a felicidade os separe

Silvio Medeiros


Os avós de um amigo meu se divorciaram. Na hora foi difícil acreditar. Como isso soa estranho, não é o tipo de notícia que se ouve todos os dias. De certa forma existe ainda em nossas mentes algo que não consegue aceitar que avós podem se separar. A entidade “avós” resiste no imaginário como uma união inseparável e inquebrantável. Avós divorciados e geladeiras vermelhas, algumas coisas simplesmente não combinam.

Mas pais que se divorciaram, amigos que se divorciaram, parentes que se divorciaram, isso sim soa plausível. Não causa espanto algum. Aliás, ninguém mais escreve sobre isso, já é um assunto old fashion. Parece que o nível de tolerância e compreensão para fracassos matrimoniais é muito mais alto para as gerações atuais.

É verdade que nunca se viu uma crise tão grande no casamento como se vê nos últimos anos. Há mais separações do que casamentos anualmente no Brasil; 30% dos casais se separam antes de um ano de casamento; 50% dos que se separam não duraram três anos. A média final de duração dos casamentos é de 11 anos. E então vemos uma realidade tão repleta de casos assim que a coisa toda se torna banal, normal, um deja vú coletivo.

Mas o fato é que a experiência da separação não tem nada de trivial. Separações são verdadeiras mutilações afetivas/emocionais e morais, das piores pela qual uma pessoa pode passar. Ela carrega consigo uma carga pesada de baixa-estima, de rejeição, um profundo pesar e sensação de fracasso, além de outros efeitos depressivos que poderá acarretar num esvaziamento completo do próprio sentido da vida. Quando existem filhos envolvidos, por mais que os filmes e as novelas tentem maquear, vemos um drama ainda maior: vítimas alheias e inocentes que terão para sempre afetados a construção de seus modelos afetivos, traçados naturalmente na observação ocular de seus pais.

E é aí que a notícia do meu amigo ganha ainda mais relevância: nossos avós não se divorciavam. E ninguém achava estranho. E não se divorciavam num tempo onde muitos casamentos eram arranjados, onde alguns noivos nem se escolhiam, onde o primeiro beijo acontecia depois do “sim” diante do altar. Com minha avó materna foi assim: não escolheu o marido e depois que este morreu, nunca mais se casou, de tanto amor. Não é curioso? Ariano Suassuna, um notório exemplo, casou-se com sua primeira namorada e estão juntos há algumas décadas! Hoje os casais se conhecem, se testam, se escolhem mais livremente, mas seus casamentos não duram mais do que algumas viagens, alguns passeios e algumas dezenas de meses.

Ao que tudo indica o modelo tradicional do casamento, ou o que já foi tradicional, escondia uma enorme sabedoria diante do sentido da vida do casal que precisamos aprender a reconsiderar. Por detrás deste antigo fato de não se escolher com quem casar (pelo menos por parte dos noivos) vemos surgir a eloquência de um pensamento interessante: não se casa para ser feliz. Sim. Parece chocante, mas nada é mais verdadeiro. Basta pensar que o casamento é uma instituição de direito natural do homem voltada para a criação e a manutenção da família. Essa é a sua razão de ser. Ela existe antes de Holywood, antes do romantismo, antes mesmo do Estado, e parte da necessidade da procriação do ser humano e não do “direito de ser feliz”. Aliás, a divisão da humanidade entre homens e mulheres só faz sentido por isso: há que se continuar o ciclo da vida humana. E não só continuar esse ciclo, mas elevá-lo. Sozinhos, somos muito frágeis. Necessitamos de um ambiente de confiança e intimidade, onde não entre a competição e a disputa, onde cada um conduza o outro a felicidade, mesmo que à sua maneira, e onde não entre a possibilidade de ruptura.

Acredito que a frustração de muitos relacionamentos provém desta falsa idéia atual de que o casamento é uma opção, uma escolha pessoal de felicidade. Um mero direito. O significado residual que sobra de tal decisão é um mero contrato que obriga ambas as partes a satisfazer o outro sob pena de troca. Uma idéia que contraria a dignidade humana, que faz do outro o seu direito de satisfação, que subjuga-nos no patamar de coisa que possa ser usurpado. Se existe direito de casar para ser feliz então não existe limite para quantas vezes uma pessoa possa se divorciar ou abandonar uma família.

Não digo que devemos parar de escolher com quem desejamos nos casar, devemos o fazer bem aliás, mas que mudemos o foco do porquê decidimos e queremos nos casar; podemos acabar sendo mais felizes e tendo casamentos mais duradouros. Se tenho noção de que me caso para criar e formar uma família acima de tudo, para entregar à sociedade pessoas maduras, serenas, com virtudes, para afinal de contas deixar ao mundo um legado que valha a pena, então naturalmente a felicidade aparece. Se reconheço que a própria verdade da família traz em sí uma realidade indissolúvel, que irmãos não se divorciam e nem pais se divorciam de seus filhos, que estes não vão ao cartório reconhecer isso, e que portanto manter o amor dispensa a presença emotiva de um sentimento, então o casamento começa a ser mais que um contrato. Nossos avós tiveram sucesso em boa parte por isso: descobriram que laços de união e parentesco não estão atrelados necessariamente a uma emoção, a um sentimento, ou a auto-satisfação, mas ao compromisso de ser família. Eles conseguiram, nós conseguimos também.

Essa maneira de enxergar o casamento pouco tem de atrativa, de sedutora, mas talvez seja a única razoável e sincera o bastante para pelo menos diminuir a frustração e a desilusão que esta geração está enfrentando. Talvez ela faça com que muita gente pense em não se casar, mas quem sabe essa não seja precisamente uma parte da solução? A fundação de uma família não precisa de casais carentes que buscam desesperadamente um preenchimento do vazio de suas vidas, que desejam incentivos fiscais, aceitação social, desconto em planos de saúde etc, mas de pessoas preparadas para os desafios que a sociedade de consumo impõem a quem deseja construir uma pequena comunidade de fraternidade, de respeito mútuo, de valores e de virtudes humanas, maiores e mais nobres do que o desejo de satisfação própria, muito natural, mas convenhamos, muito egoísta.

Se é verdade que quanto maior a luta, mais recompensador é a vitória, então como valherá a pena decider-se todo o dia pelo casamento e pela família.


Silvio Medeiros é premiado publicitário e graduado em Comunicação Social


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